A adesão ao estudo foi facilitada após esclarecimentos sobre a natureza da pesquisa, uma vez que, inicialmente, havia resistência com alguns trabalhadores acreditando que os testes seriam relacionados ao uso de drogas, por exemplo.
Resultados da pesquisa
Os resultados da pesquisa revelaram dados alarmantes sobre a prevalência da brucelose entre os trabalhadores de abatedouros. A pesquisa identificou a presença de Brucella no sangue de um número significativo de trabalhadores, com destaque para aqueles que manipulam carne e vísceras sem a utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados.
“A resistência ao uso de EPIs é um problema grave, porque, sem eles, os trabalhadores ficam vulneráveis ao contato com o sangue e as vísceras dos animais infectados”, afirmou o pesquisador.
Além disso, o estudo apontou que a falta de inspeção adequada nos abatedouros privados e públicos contribui para a disseminação da doença. A pesquisa indicou que muitos abatedouros não realizam os testes necessários para detectar a brucelose nos animais antes do abate, o que aumenta o risco de contaminação dos produtos consumidos pela população.
Impactos na saúde pública
A brucelose não só afeta os trabalhadores diretamente expostos, mas também representa um risco para a saúde pública, uma vez que os consumidores de produtos contaminados, como carne e leite não inspecionados, também estão em risco. A doença pode causar complicações sérias, como infertilidade, dores articulares e até óbitos, em casos mais graves.
O tratamento de brucelose requer o uso de antibióticos potentes, o que pode sobrecarregar o Sistema Único de Saúde (SUS), além de gerar custos elevados. “Essa doença onera bastante o SUS, pois o tratamento é longo e exige o uso de antibióticos fortes”, apontou Arthur Willian.
A falta de diagnóstico adequado, especialmente em áreas com baixa cobertura de saúde e conhecimento sobre a doença, dificulta a prevenção e o tratamento precoce.
Uma das maiores lacunas identificadas pela pesquisa foi a resistência ao uso de EPIs nos abatedouros, o que facilita a transmissão da doença entre os trabalhadores. Além disso, a infraestrutura precária e a falta de programas obrigatórios de vacinação dos rebanhos contribuem para a propagação da brucelose.
Internacionalização da pesquisa
O estudo na Paraíba tem implicações não apenas para a saúde pública local, mas também para a saúde pública global. A brucelose é uma preocupação crescente em países emergentes, como China e Índia, e agora, com os dados obtidos na Paraíba, torna-se um alerta para outras regiões do Brasil e para países em desenvolvimento.
“Eu acredito que a internacionalização da pesquisa pode motivar outros países, principalmente os emergentes, a monitorar a saúde das pessoas que trabalham com produtos de origem animal e garantir que os alimentos estejam livres da bactéria Brucella antes de serem comercializados”, afirmou o pesquisador.
A descoberta de casos de brucelose em humanos na Paraíba, até então não diagnosticados, pode incentivar uma maior fiscalização e a adoção de políticas públicas mais rigorosas, com o objetivo de erradicar a doença.
A brucelose deve ser uma prioridade nas políticas de saúde pública, com maior ênfase na testagem massiva, campanhas educativas e, principalmente, na regulamentação de condições sanitárias adequadas nos abatedouros e no controle do rebanho bovino. Isso inclui a adesão voluntária dos produtores ao programa de vacinação contra a doença, algo que ainda não é obrigatório, mas que poderia reduzir a transmissão.
Por Erickson Nogueira, g1 PB